segunda-feira, 21 de março de 2011

Como falar de MORTE com as crianças.

Nina, por Ziraldo na capa do livro "Menina Nina. Duas razões para não chorar"





Essa é uma das reportagens da Crescer desse mês.
Lendo a revista pela 1ª vez, pulei esse assunto, virei a página.

Mas quinta-feira passada, corri para pegar a revista, já considerada lida, e fui estudar!

A minha empregada, Noely, que trabalhou comigo quase 9 anos, faleceu. Foi uma dor muito grande...e eu, já preparada (pela gravidade da doença dela), me surpreendi com o tamanho da tristeza que senti.
Conviver com uma pessoa na própria casa diariamente, não é fácil. Tivemos muitas desavenças, naturalmente... Mas ela ajudou a criar meus filhos, e isso, não tem dinheiro que pague.

A irmã dela me agradeceu por eu ter cuidado dela, mas eu disse uma coisa para ela que resume tudo: "Ela que cuidou de mim".

Depois de todas as cerimônias, veio a parte complicada: contar para as crianças.
Decidimos esperar até hoje, pois os meninos tinham estréia no campeonato no sábado, e o Luca fez aniversário no domingo. Segunda então.

Na matéria da Crescer, chamada Conversa Difícil, entre outras coisas interessantes (como as ilustrações do Ziraldo e a história dele contando da morte da esposa para a neta)  dizia que:

"Se for alguém muito próximo e você estiver sofrendo muito, procure se acalmar primeiro. Use uma linguagem simples que seu filho entenda. Rita aconselha usar o verbo morrer mesmo. Se a pessoa estava muito doente ou tinha muita idade, isso vai responder à famosa pergunta “por quê?”. Já as metáforas que os adultos usam para falar de morte podem não funcionar tão bem, principalmente para as crianças menores de 6 anos. Dizer que o vovô foi viajar, que a tia foi morar com o papai do céu, ou que o primo vai dormir para sempre são conceitos difíceis para os mais novos. Eles ficam imaginando por que o papai do céu não deixa vir visitar, podem ficar com medo de dormir e não acordar mais, ou do pai ir viajar e nunca voltar. Seja simples e espere pelas dúvidas de seu filho."


Pois bem, foi o que eu fiz...
Hoje, depois de levar a pequena para a escola, sentei com os meninos para conversar. Falei sobre a doença dela, (câncer) e como era difícil a recuperação. Em seguida, tentando não cair, de novo, em soluços, falei a frase nua e crua: Ela morreu.

Eles?
Fizeram cara triste e tentaram me consolar.
Falei se eles queriam perguntar alguma coisa. Não foi a resposta.
Se choraram?
Não. Pelo menos não naquele momento. Não sei ainda o que está por vir.

Tirei um peso das minhas costas. Odeio mentir pra eles, e tive que inventar algumas para justificar, por exemplo, a carona do amigo na volta da escola quando não pude buscá-lo no dia do velório: "Tive uma reunião, filho!"

Mas ainda faltava a Lia... Lembrei de outro trecho da matéria:

"... por volta dos 6 anos, a criança não entende que a morte é irreversível. “Nessa fase ela não difere fantasia da realidade, acredita que, assim como nos desenhos animados, dá para se levantar depois que cai uma bigorna na sua cabeça”"


Na volta da escola não consegui esperar chegar em casa. Falei no carro mesmo:

- Filha, precisamos conversar.
- É sobre o sapateado?
- Não, é sobre a Noely. Lembra que ela tava muito doentinha?
- Sei. Amanhã não vai ter "moça" de novo.
- Não, filha, não é isso.
- Ah, tá.
- O dodói dela não passou. Você sabe o que acontece quando o dodói de alguém não passa?
- Não.
- A pessoa morre. Foi isso que aconteceu com ela.
- Ah... mas depois ela vive de novo, né? (falou sorrindo)
Parei o carro e olhei para trás...
- Não, não vive mais... Só lá no céu, pertinho de Deus... Quando a gente for rezar, você pede pro Papai do céu cuidar bem dela.
- E ela também escuta?
- Sim, ela vai ouvir você.
- Então posso pedir para ela fazer o meu leitinho?
- Não, filha, o leitinho a mamãe faz pra você, tá?
- Tá bom!

14 comentários:

  1. Jú, acho q essa parte é umas das mais difíceis... Adori a dica da revista, vou comprar e ler a matéria toda. Tenho mto medo de não saber sair bem de uma situação dessas como vc. Parabéns, agiu muito bem!
    Bjos,
    Camila
    www.mamaetaocupada.blogspot.com

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  2. Ju,
    Passei por essa situação há alguns meses atrás quando minha sogra morreu repentinamente. Agi como você e falei para as meninas sem rodeios, mas com delicadeza. Ainda tem diariamente perguntas sobre esse assunto e seus desdobramentos(tipo, quando morre vai pro céu ou pro cemitério?).
    Aqui em SP tem duas peças infantis em cartaz que falam sobre o tema: a própria Nina do Ziraldo no Sesc Pinheiros e o Pato, A morte e a Tulipa no Cacilda Becker. Fica a dica.
    Bj e força com tudo aí!
    Priscilla

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  3. Passei o dia tentando achar um jeito de te ajudar...
    Penso que eu que precisava de ajuda...
    Ainda dói e doerá por algum tempo em nós que não temos mais fantasias e que sabemos que quando a 'bigorna cai' é definitivo...
    Te amo filha...
    beijos
    Ne

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  4. Nossa Ju, que barra!
    Imagino como é difícil, pois quando minha avó faleceu, foi dolorido demais contar a minha irmã tbm. E olha que eu tive que contar pois estávamos cuidando do nosso avô na hora e ele sim, que foi muito, mas muito difícil de contar, ja que ele estava em pior estado que ela ...

    mas você foi 10 e infelizmente a vida é assim.

    Força aí, bjs

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  5. Coisa complicada, né?
    Passei por isso com os meus. Sei exatamente o quanto é difícil contar...
    Você foi show! beijo!

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  6. Que tristeza, né? E você foi tão delicada e cuidadosa ao contar para eles...
    Esse é o tipo de coisa que a gente espera nunca precisar passar, mas que uma hora ou outra vai acontecer, simplesmente porque faz parte da vida.
    Beijos

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  7. Ai, guria, fiquei super emocionada...e olha que sou um poço de risada ambulante, né?? Poxa, qdo minhya xará falou do leitinho....
    Um beijão e meus sentimentos à vcs

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  8. Nossa, tô chorando aqui...
    Que coisa difícil! Acho que, quando chega a hora de falar sobre isso com os filhos, eles amadurecem um pouquinho mais, pois são obrigados a lidar com um assunto tão difícil.
    Que Deus abençõe a família da sua empregada e a sua família também, e conforte o coração de todos!
    Bjs,
    Juliana.

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  9. oi ju...sem levar em conta a historia (que é bem triste).. seu texto ta muito bom! muito mesmo!

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  10. Ai Ju... que lindo e triste ao mesmo tempo. Essa abordagem aqui é super importante, passei por uma situação complicadíssima há muitos anos atrás qdo Stella tinha 4 anos e não soube lidar, talvez pelo meu spfrimento e imaturidade tb. Sei que hj Stella tem 'sequelas' dessa falta de tato da época.

    Vc fez muito beem a começar pela informação que vc buscou.Assim como a vida a morte é uma coisa natural e deve ser tratada como tal.

    Bjo grande e meus sentimentos pela Noely.

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  11. Oi Juliana...Nossa isso tudo é muito chato e complicado.
    Me emocionei com a inocência da pequena,sobre a Noely fazer o leitinho dela.
    Beijo grande.

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  12. aiaia Jú, chorei! Sei o qto a Noely te ajudou e o qto ela fazia parte realmente da sua família...as crianças, que ela sempre cuidou com todo carinho. Mas a vida é assim...Tenho certeza que só o tempo resolve. E seus filhos são lindos, tem uma família forte, e passarão por isso numa boa.
    Conta comigo!
    Bjs em todos

    Seu blog é uma graça!

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  13. olá,
    Achei que agil corretamente, porem tem 1 mes que perdi a minha irma em um acidente ela tinha 42 anos e deixou uma filha de 6 anos, fizemos tudo isto porem como a minha irma era divorciada do meu cunhado a menina esta com o pai, porem ela se negou de ir ve-la no cemiterio e não quer de falar sobre o assunto, so que esta semana ela esta muito chorosa. Peço ajuda de alguem para me dizer como devemos nos portar perto dela, pois não sei se falo com ela sobre a minha ima. ou espero ela me perguntar algo.

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  14. Nathália Alonso3 de junho de 2011 21:32

    Ju....
    Você é a mãe mais lindaaaaaaaaa do mundo! Tirando a minha tb, é claro...rsrsrsrs!
    TE ADMIRO DE LONGE e espero um dia ser uma mãe linda que nem vc!
    Beijinhos Ná (sua madrinha de casamento, né?)

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